terça-feira, 19 de julho de 2011

MOMENTOS 30


19 de Julho de 2011


Necessito de vos dizer como tudo começa pois as histórias, todas as histórias, contêm uma certa magia no seu início.

De um peixe nasceu, certo dia, a mais bela das princesas que cheirava aos cheiros de todos os nascimentos.

Um eremita ao vê-la assim tão bela, desejou possuí-la. No seio do mais denso e perfumado dos nevoeiros a engravidou dando-lhe um filho, aquele a quem a primeira de todas as histórias foi contada pelas pedras.

Vyasa, filho da névoa, assim nasceu, numa terra sem guerras nem fomes nem misérias e onde homens e deuses viviam lado a lado.

Bhishma, o príncipe perfeito, aquele que nunca poderia ser rei por não poder conceber, irmão de Vyasa, aquele a quem contaram a primeira história. Bhishma, aquele que fez a jura da mais absoluta renúncia, aquele que os deuses enalteceram e a quem ofertaram a mantra que lhe facultará a escolha da hora da sua própria morte.

Bhishma conquistou três princesas em batalha, três mulheres que ofereceu como esposas ao irmão mais novo. Amba, a mais nova, chorando se aproximou de seu senhor dizendo que antes de Bhishma a ter ganho no torneio já o seu coração tinha escolhido um marido em segredo e que o seu amado o sabia e a amava. Ele é Salwa, o rei. Amba perguntou a Bhishma, virtuoso entre os virtuosos, qual a razão porque a deseja casar com o seu meio-irmão, pois ele seguramente entende, como nenhum outro, que o seu coração pertence a outro homem que a aguarda.

Sendo verdade o que dizia, Amba foi libertada para que pudesse ir ter com o seu rei e senhor, mas este a rejeitou pois ela tinha sido o prémio de outro que não ele. Amba disse a Salwa que se encontrava pura e intocada e que por nenhum outro homem fora alguma vez desejada, que era virgem e que seus olhos apenas Salwa conhecem. Mas o rei disse recear Bhishma e que Amba devia regressar pois para si era como se ela já não existisse.

O meio-irmão de Bhishma casou com as outras duas princesas tendo falecido na sua noite de núpcias não tendo havido descendência. Mas se não nascem crianças a história acaba sem ter sequer tido um início.

Vyasa, o que foi criado no meio da neblina, dotado de invisibilidade, foi ter com a mais velha das princesas que não o podia olhar de frente, e lhe disse que iria nascer Dhritharashtra e que este nasceria sem visão.

Vyasa, o que foi criado no meio da neblina, foi ter com a segunda princesa e lhe disse que iria nascer um filho branco como o leite e que se conhecerá como Pandu, o pálido.

E a terceira e mais nova das princesas pediu auxílio a Bhishma, que a salvasse pois ela fora rejeitada pelo homem que ama. Bhishma tinha sido o causador de todo o seu sofrimento, e se a ganhou em combate que a desposasse, mas Bhishma recordou-lhe que tal não era possível pois mulher alguma, nem mesmo Amba, pode fazer parte da sua vida. Se Salwa a rejeitou, Alba está livre para regressar para junto do pai. Mas o pai de Amba é severo e maltrata-a como não se maltratam os animais, e ela propôs caminhar sempre em frente, de vestes rasgadas como penitente, vivendo apenas com um pensamento, como se esse pensamento fosse dádiva e a ajudasse a encontrar alguém que combata Bhishma até que este morra. Sendo Bhishma invencível, Amba fez um voto para que nenhuma mulher neste Mundo possa pensar em outra coisa que não seja a morte de Bhisma.

Pandu, o pálido foi coroado rei pois seu irmão Dhritharashtra era cego e não podia ser rei.

Kunti, aquela que, sem saber, carrega em seu útero toda a fé do Mundo, e a criação que dela nascer será grandiosa e sem ela não estaríamos aqui. Kunti olha o Sol, o seu segredo, casa com o rei Pandu que também desposa Madri.

Numa das inocentes caçadas do rei Pandu se traçou o destino do Mundo. O rei acerta em duas gazelas que eram dois amantes disfarçados e que assim se encontravam para expressar o seu amor. Os dois amantes lançaram uma maldição sobre o rei não podendo este nunca ter em seus braços as esposas pois seguramente morreria.

Pandu fugiu para as montanhas sem deixar traço e Dhritharashtra tomou o lugar do irmão. Madri e Kunti perguntaram-lhe o que iria ser delas e Pandu lhes respondeu que nada tinham para lhes oferecer a não ser pobreza e virtude até á morte. Os três abandonaram o palácio em direcção às montanhas, andaram por muitos dias até que alcançaram as profundezas dos Himalaias, o tecto do Mundo. Aqui fizeram a sua morada mas a sombra da maldição das gazelas escureceu para sempre as suas vidas. Se alguma vez Pandu procurasse fazer amor com Madri ou Kunti a morte o visitaria e perante esta evidência aceitou o inevitável pois isto, pensou ele, era o seu destino.

Mas Kunti carregava no seu coração um antigo segredo. Quando nova um eremita ofertara-lhe um mantra pelos bons serviços prestados. Com esse mantra Kunti podia invocar qualquer dos deuses à sua escolha. E Kunti invocou o deus Sol que foi seu amante e lhe deu um filho mantendo-a virgem. Abandonando todos os seus receios, Kunti caiu nos braços do Sol e instantaneamente tiveram um filho Sol esplendoroso e radiante. Kunti permaneceu receosa e escondeu a sua falha, o seu segredo. Colocou o filho recém-nascido numa cesta e o abandonou à mercê da corrente do grande rio. Um condutor o avistou e o resgatou da morte certa.

Karna, filho de Kunti e do deus Sol. Criança magnífica, cresceu como homem hábil e inspirado mas que no coração mantinha guardada uma sombra amarga pois não sabia quem era.

Tal como o rapaz-pássaro das lixeiras de Allahabad, Karna terá de procurar nas viagens e no conhecimento de todas as histórias qual a que lhe permitirá obter a resposta tão aguardada. Talvez Karna seja irmão de Larniki pois tal como o rapaz-pássaro ele não sabe quem é.

E Kunti revelou o seu mantra a Pandu e como lhe deu uso e como estava certa que o deus Sol a fecundou e lhe deu um filho.

E Pandu pediu-lhe que invocasse Dharma pois perante ele todos os pensamentos se curvam.

- Este é Yudhishthira, o nosso primogénito, filho de Dharma, nascido para ser rei.

E Pandu pediu-lhe outro filho e que invocasse Vayu, deus do Vento, e Kunti assim fez.

- Este é Bhima, filho do vento, forte como o Trovão.

E Kunti invocou Indra, o rei dos deuses.

- Este é Arjuna, o guerreiro perfeito nascido para conquistar.

E Madri pediu a Kunti que esta lhe cedesse o poder da mantra para também gerar um filho e Kunti assim fez, invocando os Aswins, gémeos de olhos dourados.

- Estes são os nossos dois filhos, Nakula e Sahadeva, inseparáveis como a paciência e a sabedoria.

Pandu rejubilou pelos seus cinco filhos descendentes dos deuses.

Eles são Pandava, os cinco filhos de Pandu. Eles são o coração da história primeira, desse poema, e nunca nos deixarão.

Terá Larniki, o rapaz-pássaro, o mesmo sangue dos Pandava?

Será Larniki, o rapaz-pássaro, descendência dos próprios deuses?

Isto é aquilo que a história pretende contar, esta e todas as outras, até a primeira.

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sábado, 16 de julho de 2011

MOMENTOS 29




13 de Julho de 2011


Porque procura o tempo este reino para descansar?

É fácil cair, nunca aqui chegar.

Os que nele moram desejam manter o equilíbrio do reino como sempre existiu. Preservar a natureza, as tonalidades que a envolvem, as montanhas sagradas que não se podem profanar.

O país pertence-lhes, como o céu que o cobre, como as montanhas que o protegem, como as florestas que lhe permitem respirar. Caminhos muito difíceis fazem com que este seja um reino distante, longínquo e raro de visitar. Aqui as histórias, como o tempo, chegaram para repousar.

Assim que percorremos os primeiros trilhos somos envolvidos pela magia da diferença, por uma luz que inebria, por sons extasiantes e passamos a ser parte do reino misterioso, parte das montanhas, parte deste céu que nos cobre, parte dos seus prados, das suas florestas e dos seus rios.

Por momentos esquecemos todos os momentos, como se a magia contida na sagrada marca azul tivesse sido por mim invocada, e o tempo parou.

Este é o reino onde a marca teve o seu início. Os sentidos ficam mais activos e, por breves instantes, isolado como uma ilha no centro da planície verdejante, senti-me o primeiro habitante do planeta.

Sou o primeiro dos seres-humanos, aquele onde a primeira história habitou. Em mim plantaram todas as dúvidas para que a sobrevivência fosse possível.

Já me perdi estando longe no meio do nada, mas tu abraçaste-me, vieste em meu auxílio e iluminaste-me com o teu sorriso. Com tudo a ganhar, caminhar era a única solução. Avançar, utilizar a sagrada marca azul para dar início à primeira de todas as histórias.

Aqui sinto-me verdadeiramente em casa.

Amanhã vou acordar em casa, sozinho ao sol, como ilha, beber destas águas cristalinas de quem já tinha saudades, ler as mensagens contidas em cada árvore, meditar na sua sombra hoje que o sol veio temperar a sagrada marca azul.

Neste reino não existe culpa, os caminhos que se percorrem providenciam recordações dos tempos das primeiras histórias.

Meditei nestas florestas pelo tempo de sete vidas.

Mantive a minha existência camuflada e percorri todos os caminhos do reino, transformei-me no céu que o cobre, nas montanhas que o protegem e até nas florestas onde meditei.

Aqui senti quem verdadeiramente eu sou.

Este é o tempo de recomeçar.

O apelo da viagem regressou. Não posso continuar camuflado a as asas voltaram a bailar. Recordo a dança dos grous e levanto voo bem alto na direcção dos céus que enfeitiçam o reino do Butão.

Procurarei os templos onde se arquivaram as histórias.

Os monges que os preservam relembram aos mais novos como tudo acontece, como os oceanos longínquos já cobriram todo o reino, como o dia amanhece e a noite cai, como a vida se reinventa, como os sonhos fazem viajar, como viajar, como procurar as respostas às escolhas que terão de efectuar, como falar, como comunicar com os contrários, como sacrificar as vontades, como aprender com os males que carregamos dentro de nós, como ler as histórias escondidas no coração das pedras, como tirar partido do jogo e do eterno fluxo do rio, como pertencer à sua corrente, como derrotar todos os males e como meditar.

Sou o rapaz-pássaro.

Fui o rio, o céu, a floresta e a montanha. Só penso na hora em que estarás comigo pois assim sei que me vês, sei que sabes de mim e temos tanto para contar.


É fácil cair

Impedir o equilíbrio de todos os reinos

Pintar de escuro a natureza

Profanar as montanhas sagradas


Este reino não vos pertence

O céu protege-o

As montanhas abrigam-no

As florestas são os seus pulmões

O tempo vem aqui para descansar

Como as histórias


Aqui se esquecem todos os momentos

Os sentidos ficam mais activos

Ajudam na descoberta

Do verdadeiro Eu


Somos o primeiro habitante do planeta

O primeiro onde habitou a primeira história

Somos aquele onde plantaram todas as dúvidas

Para que a sobrevivência fosse possível


Este reino é a nossa casa

Onde tudo recomeça

Onde os céus enfeitiçam

Onde se arquivaram todas as histórias

Desde o tempo em que os oceanos o cobriam


Este é o reino dos abraços

Onde os monges recordam e ensinam

Como tudo acontece

Como a vida se reinventa

Como se derrotam todos os males

E como meditar

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sexta-feira, 15 de julho de 2011

MOMENTOS 28


12 de Julho de 2011 ( noite )


Parti novamente movido apenas pelo simples prazer de voar. Planar sempre em direcção ao Oeste, até onde o reino do Butão nos recebe como recebe os bandos de grous. Procuro as histórias que foram trazidas pelos primeiros pássaros de pescoço e cabeça negras, as histórias que o primeiro rapaz-pássaro de pescoço e cabeça negra contou e que aqui cresceram com as histórias dos peregrinos locais até aos dias de hoje.

Deste lado do Mundo, tão perto da influência da montanha-mãe mas tão escondido das rotas percorridas pelos mais aventureiros dos peregrinos, chegamos à terra de todos os silêncios. Esta é a terra escolhida pelo deus tempo para descansar. Permaneceu igual à época das primeiras histórias. Os perfumes lançados pelas lamas de onde todas as coisas foram criadas cheiram-se neste reino.

Antes da criação do tempo houve um mágico pequeno instante que separou o aparecimento da matéria e a sua construção; durante esse mágico instante parte das lamas iniciais foram cristalizadas em silêncios. Após a construção de todas as coisas foram arquivadas neste reino. Estão espalhadas pelos seus incontáveis templos, fornecem-lhes a devida protecção elevando-lhes a nobreza e majestade.

As histórias ensinadas viajam, crescem, transformam-se e transformam quem as procura perpetuar. Nesta aventura que é a da própria vida, nesta aventura em que procuro entender os segredos da vida, continuo sem saber quem sou, não conheci progenitores, parentes, não sei porque sobrevivi, porque recordo as miseráveis lixeiras de Allahabad quando o que mais desejava era apagar esses momentos da memória.

Venci a morte, venci o primeiro de todos os destinos, venci o firmamento, o rio, as neblinas e os desertos, cresci com as preces dos peregrinos, caminhei pelas escarpas geladas que me levaram até à montanha-mãe, até ao planalto de Gomukh que me viu nascer.

Venci o grande rio sagrado em que me transformei deixando para trás o corpo e o seu trilho para enfrentar a ira da montanha-mãe, venci as tempestades ciclónicas, venci a solidão e as distâncias e as sombras.

Todas as vitórias obtidas se devem ao poder incalculável contido na sagrada marca azul que me ofereceste.

Como consegui derrotar a morte nas margens apinhadas de peregrinos do grande rio sagrado em pleno Ardh Kumbh Mela?

Quantas foram as viagens realizadas em tão poucos anos?

Em tão poucos anos, quantas histórias ajudei a criar, quantas ajudei a relembrar?

As vidas estão ligadas como a corrente transparente do grande rio sagrado. Procurarei os parentes do primeiro rapaz-pássaro de pescoço e cabeça negra, procurarei os seus herdeiros e ficarei feliz quando os encontrar.

As palavras que hoje ensinam, as palavras das primeiras histórias, foram por mim nomeadas e ajudadas a perpetuar. Sei como chegaram até ao primeiro dos seus que depois a transportou até que todos os seres vivos carregassem parte importante dessas histórias.

Através das viagens dos oito irmãos se espalharam as palavras por todas as províncias e pelo terceiro desses irmãos as histórias aqui chegaram.

Como aconteceu tudo isto em tão poucos anos?

Quantos anos mais serão necessários para que tudo volte a acontecer?

Neste reino de silêncios que agora visito procurarei mais respostas para esta história.

Acompanha-me, minha princesa do Ganges, o meu coração e o teu são o mesmo. Por aqui esquecerei, por momentos, como dar uso às asas brancas e avançarei caminhando como fazem todos os peregrinos do Mundo.

Este é o momento de seguir a pé nesta viagem.

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MOMENTOS 27



12 de Julho de 2011 ( fim de tarde )


Revitalizar as asas e o corpo e a vontade.

O Mundo continua à espera, continua a receber os bandos de peregrinos que migram de todas as paragens para receber como dádivas novas histórias.

Se as pétalas enfeitiçadas já não fazem parte do topo do imenso Kanchenjunga é porque abalei em direcção ao reino do Butão. Para lá migraram os primeiros grous com as histórias transmitidas pelo terceiro dos oito irmãos. Por lá se mantiveram as histórias com uma pureza ímpar, única, e só aos peregrinos que por essas paragens se aventurarem serão da mesma forma transmitidas.

Descer, voando veloz, escutando as aves e as florestas milenares, fazer parte do vento e das brisas que as penteiam.

Acompanhei a história até aqui. Os passos dados, as evidências recolhidas, os voos realizados e as montanhas conquistadas.

Ao ter desejado ser apenas rapaz-pássaro para livremente percorrer os caminhos, os céus, as paisagens, deixar-me ir ao sabor dos ventos e das nuvens, abracei a condição mais solitária da viagem. Passei a ser o peregrino que procura e não aquele que move os peregrinos. Passei a visitar as estrelas com paixão e com saudade.

Não posso afastar-me da influência da grande cordilheira. A imponência e majestade dos seus cumes, vales, veredas, a importância que possuem todas as histórias que nas suas pedras estão arquivadas fazem dos meus voos meros passeios em seu redor. Aqui estão guardados todos os inícios, aqui continua a crescer a mais alta de todas as montanhas, aqui se escutam as histórias, se transmitem de pais para filhos, de avós a netos, de peregrinos a outros fiéis, de professores a discípulos, e dos poetas à mais fiel das suas companheiras, as folhas virgens que darão à luz os seus poemas. Aqui se escutam os sons de todas as músicas e melodias. Aqui se vê mais longe e distante e daqui nos transportam as pedras sagradas por viagens inesquecíveis que nos levam às profundezas das galáxias, dos universos, deste universo e até ao primeiro. O amor existe algures nestas montanhas, como o vento sopra, espalha, vem ter connosco e nos transforma.

Recordo mais uma vez o teu sorriso de menina, a tua voz e o teu perfume. Os teus cabelos negros, os teus olhos negros profundos e sábios, os sabores do teu corpo, as melodias que acontecem quando nos unimos, as estrelas luminosas que brilham agora mais do que nunca por estarmos finalmente juntos na nossa morada lunar.

É tarde para nos desculparmos, para imaginarmos o que poderia ter acontecido se não me tivesses transformado em rio. Abalei feliz pelo céu transfigurado em firmamento, feliz por ter encontrado quem me protegesse, feliz por ter deixado de ser invisível, por ter descoberto o gosto pelas coisas belas da vida, feliz por existir vida para lá das amargas lixeiras de Allahabad, feliz por não ter morrido afogado tão novo nas águas sagradas do Ganges, feliz por me teres mostrado o lugar onde habitas, a mim e só a mim, minha amiga, meu amor.

A lua é o lugar onde vivemos, por um instante, para toda a eternidade, e a solidão deste momento da viagem trouxe-me a recordação dessa luminosa certeza.

Estou feliz porque fomos felizes no lado mais iluminado da lua.

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MOMENTOS 26


12 de Julho de 2011 ( tarde )


Do alto da montanha de Kanchejunga observo todas as outras, e os vales e as falésias e os muitos glaciares e as altas montanhas do norte do Butão. Cruzo as pernas, fecho os olhos, escuto os riachos e a música que a natureza faculta. O sol irradia o seu calor nesta tarde de Verão e ao meu redor começam a desabrochar flores de cores garridas que depois se transformam em violeta, lilás, roxo e azuis muito escuros, mais escuros que o azul índigo de minha pele. No alto das neves mais eternas, escondidas debaixo deste manto espesso que cobre o majestoso Kanchenjunga, eis que esta surpresa feita de cores pinta o cume da montanha. Consigo escutar os bandos de grous que viajam em direcção ao Oeste, consigo escutar a chuva miudinha que cai nas montanhas do reino do Butão. Escuto a relva, as florestas milenares e o vento e a brisa que penteia as verdejantes árvores que se mantém iguais às suas avós do tempo das primeiras histórias. Consigo escutar as abelhas, o voo das borboletas, o labor das aranhas, as carpas que nadam nos velozes rios, os leopardos das neves, os iaques, mais bandos de grous, os corações das pedras nos vales e nas encostas escarpadas do reino. Estes corações batem ao mesmo ritmo e sabem das histórias pois também as arquivaram, como desejos, como desejos perpétuos que fazem rodopiar o planeta, que o ajudam a descobrir o dia depois da madrugada, após a escuridão da noite que apaga a luz. Ajudam a manter acesa a dúvida para fazer crescer as histórias, para ajudar a acrescentar mais e mais capítulos à primeira, para facultar as respostas mais válidas para as mais importantes de todas as questões.

O que acontece quando morrermos?

Que momento igualará o do nosso nascimento?

Que momento nos fará acreditar que tudo vale a pena?

Que momento nos ajudará a construir a história primeira?

Que momento nos dará as respostas para as dúvidas que carregamos?

Que momento nos ajudará a acalmar o filho que sente os medos, as dúvidas e os receios?

Que momento nos ajudará a acalmar as nossas dúvidas, medos e receios?

Que momento nos dirá qual a estrada a percorrer e de que estradas nos devemos afastar?

Escuto a tua voz, menina princesa do Ganges, nesta tarde de Verão no topo florido do Kanchenjunga.

- “As lamas, todas as lamas, foram criadas para permitir a construção de tudo o que existe. Imaginar o tempo como consequência dessa imensa primeira construção, como um pedaço de lama sujo retirado da imensidão. Lanternas de luzes esverdeadas aqueceram as lamas, das mais amargas às mais doces, desde as mais duras e ressequidas às mais moles e sedutoras. O tempo surgiu dessa primeira construção antes do espaço onde tudo corre e se espreguiça, surgiu para fazer dançar tudo o que dessas lamas fosse construído. Surgiu antes das mágoas, dos sentidos e das mentiras, antes dos segredos e do poder misterioso da marca azul, das águas sagradas que humedeceram a própria lama que as criou. Tu, eu e o tempo fazemos parte dessa lama. As histórias, o imenso vazio que tudo separa e tudo une são parte dessa lama. As luzes das estrelas, as galáxias distantes, os segredos que se guardam no coração das pedras, os que se comunicaram aos grous e que se perpetuaram por todos os seres vivos do teu planeta, fazem parte dessa lama. A cor viva que povoa o chão sagrado e branco onde meditas, as flores que desabrocharam com o ameno calor do sol deste Verão, o Verão, o calor, as minhas palavras que surgem distantes e acolhedoras, a nossa morada na lua, a própria lua e o espaço que a separa da Terra, a Terra, o voo de todos os insectos, os alimentos, a morte e a vida, tudo faz parte dessa lama criada para tudo construir. Continua a obedecer à sagrada marca azul que te confiei pois nada mais importa. Ensinaste e foste ensinado. Cresceste e ajudaste a crescer, descobriste e ajudaste e construir. Aprendeste com as histórias e ensinaste as histórias aprendidas. Já não és quem foste e ainda não és quem serás. E o milagre desta evidência é que a tua história só agora começou”.

Abri os olhos.

Ao meu redor o branco tinha-se transformado num jardim de tonalidades violetas e lilases. Um pequeno círculo de neve branca e pura é tudo o que resta das eternas neves brancas que vestiam o cume majestoso do Kanchenjunga onde medito.

Abri as asas.

Olha as nuvens que agora pintam o outrora azul do céu.

O sol ilumina-as e dificilmente consigo imaginar que foi criado da mesma lama que me dá existência, que deu existência às nuvens e à montanha e à neve e aos desejos.

Escuto os distantes bandos de grous que viajam em direcção ao Oeste quando um violento ciclone fez desaparecer todas as flores que vestiam o cume majestoso.

Dei conta que o ciclone foi provocado pelo bater das minhas asas poderosas

Este é o momento de viajar.


Escuto as aves viajantes

As florestas milenares

E o vento e as brisas que as penteiam


É isso que acontece quando morremos

Transformamo-nos na lama primeira

A mesma de que tu, eu e o tempo faziam parte

E as flores violetas do jardim de Kanchenjunga

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

MOMENTOS 25


12 de Julho de 2011 ( manhã )

Mais um dia acorda no alto das montanhas do Mundo. Aqui se vislumbra o seu início antes dos outros lugares. A noite e depois o dia, tal como ontem, tal como antes de ontem, tal como sempre, joguetes do deus do tempo. Mas os dias e as noites e os séculos só avançam porque o planeta dança com o sol rodando sobre si próprio, rodopiando com a energia inesgotável de todos os rapazes-pássaro.

O planeta é como um rapaz-pássaro que faz do seu voar uma constante eterna e faz com a sua dança as vontades ao tempo que sorri ao vê-lo assim rodopiar. O planeta é um pássaro mas o seu passeio é sempre igual, monótono, amarrado ao sol a quem tem de obedecer.

Os pássaros livres que dançam pelos céus perfeitos, os mesmos que beijam a montanha-mãe ao acordar, são capazes de tudo para perpetuar as histórias. Os poderosos e elegantes grous que em bandos ou solitários viajem nestas latitudes, são venerados e respeitados como nenhuma outra espécie. Os sinais que transportam, as asas que elegantemente descrevem linhas rectas e círculos perfeitos pelos céus do Tibete, do Nepal e do Butão, ligaram as histórias todas.

Um dos oito irmãos avançou para Oeste e encontrou estes pássaros extraordinários que o encantaram com as suas danças e cantares. Aproximou-se do bando que, muito territorial, o fez recuar. O chefe desses elegantes grous fez parar o confronto e avançou até ao viajante. Olharam-se com respeito e da dignidade dessa conversa surgiu o pacto que ainda hoje perdura. As histórias e até parte da primeira, todas as histórias que o viajante peregrino transportava foram transmitidas ao pássaro chefe do bando. Nele se depositou a semente e foram ensinadas as mesmas histórias que nasceram nas montanhas, que nasceram nas profundezas dos oceanos, nos lagos e nas lagoas geladas do glaciar de Gomukh.

As histórias que me tinham sido ensinadas pelas pedras e pelos peregrinos que se banharam em mim quando fui o Ganges, as histórias contadas pelas areias mais escaldantes dos desertos que venci, as histórias dos passeios galácticos pelos cometas, pelas estrelas, pela lua e por todas as galáxias que se estendem iluminando o caminho da tua morada e as histórias de todas as vidas de quem já fui. Ensinei estas palavras aos escribas, que foram perpetuadas em sinais, arquivadas para sempre como se os seus suportes fossem o coração das pedras. Esses foram os primeiros de todos os que as perpetuaram. Foram novamente lidas e ensinadas, comunicadas nas profundezas das montanhas onde os medos e os receios acabaram por as fazer viver. Aos oito irmãos foi dada a tarefa de as fazer chegar a todas as províncias conhecidas e desconhecidas.

Este irmão caminhou tendo as montanhas como companheiras, este irmão que os grous acabaram de conhecer.

Hoje, como desde esse dia, as histórias pertencem-lhes tal como pertencem às pedras de Gomukh. Os que os souberem escutar vão aprender com as palavras dessas histórias. Através deles passaram por todos os grous, dos grous aos falcões, às garças, aos faisões, aos gansos, aos patos, a todas as aves até às gaivotas que as ensinaram depois aos peixes e a todas as criaturas dos oceanos, dos rios, dos lagos e mares até que destes outros animais saíram e as comunicaram aos répteis, aos insectos, a todas as espécies invertebradas e vertebradas que fazem parte deste planeta. Todos lhe pertencem, tal como as histórias, todas as histórias, até a primeira.

No dia em que o encontro se deu mudou a forma como homens e animais se viam. O terceiro de oito irmãos peregrinos ensinou aos grous o que tinha para ensinar por todas as províncias que tinha para visitar. A primeira ave a quem as histórias foram reveladas transformou-se no primeiro de todos os rapazes-pássaro de pescoço e cabeça negras. Aos monges que hoje os aguardam, os esperam com respeito e adoração, surgem à memória esses momentos em que o terceiro irmão não viu diferença entre a sua alma e a alma do chefe grou com quem conversou.

Este é o momento de existir.

Do alto de Kanchenjunga relembro este momento.

Homem é como pássaro e pássaro é como homem. A surpresa não existe, só existem as palavras das histórias que se perpetuam no tempo com a sua ajuda, com a minha ajuda, com a ajuda de todos os animais aquáticos, terrestres e os que pelos ares transportam a verdade.

Este é o tempo de meditar.

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